Não há muitos anos, confessava que me sentia no topo de uma montanha. Na qual segurava os meus pais na parte descendente e na outra o(s) meu(s) filho(s) na parte ascendente. Como se os meus braços fossem cordas em que um dos braços impedisse uns de cair, e o outro os ajudasse a subir. Confessava, também, que com esta analogia quereria expressar que não queria que uns envelhecessem e que os outros crescessem. Sentia-me em perfeito equilíbrio comigo, com a vida, com o universo.
No entanto a lei da vida, impede-nos de controlar o factor tempo e com ele todos nós envelhecemos, acabando por perder pessoas que nos são queridas e mais que isso, pessoas que nos são essenciais.
A vida, que nunca ninguém disse ser justa, mas que simplesmente merecia ser vivida, extingue-se da mesma forma como é gerada, de um momento para outro!
Deixando em quem por cá continua as boas memórias, o amor transmitido, o agradecimento por tudo o que fez por nós, o privilégio de ter privado com ela, a saudade envolta em nostalgia que nos causa tristeza, mágoa e dor. Uma dor imensa, uma dor diferente de qualquer outra dor, uma dor intrinsecamente sentida, uma dor que arrancou um pedaço de mim!
Sempre disse, e continuo a afirmar que choramos por egoísmo, choramos por nós, não por quem parte. No entanto, egoísmo maior é querer que a pessoa continue entre nós sofrendo quando já deu tudo o que nos tinha para dar.
O equilíbrio, de que falava quando me encontrava no topo da montanha, desfez-se no passado dia 27 de Dezembro 2012, estou convicto que foi a minha mãe que largou a minha mão, que não fui eu que não a consegui segurar e isso conforta-me bastante. Lutou, até à exaustão, para estar presente connosco em datas importantes como o meu casamento e o Natal. Natal, essa data que ela gostava imenso por lhe permitir ter a família toda presente, marido, filhos e netos todos juntos à mesa, em que todos sem excepção lhe cobiçavam o seu arroz doce, o melhor do mundo e arredores!
Sentados à mesa todos na brincadeira e em amena cavaqueira, ouvindo e contando histórias e “implicâncias”, algumas hilariantes, de infância, do ‘nel e da ‘nina – forma carinhosa como os meus pais se tratavam – fruto de uma vida conjugal de 53 anos.
Lutou para além do que todos expectavam, para espanto dos médicos e nosso gáudio fintou a ceifeira por mais de uma vez com uma força sobre-humana, com uma força própria de mãe, esposa e avó, com a força de quem quer e como uma força da natureza que escolhe o seu próprio destino e a hora em que há-de partir.
Com os meus irmãos, recapitulamos episódios, alegrias, tristezas e invariavelmente vem a dúvida, olhamo-nos nos olhos e surge a questão.
– Que poderíamos ter feito pela mãe?
Todos achámos que tínhamos feito tudo o que podíamos, que lhe tínhamos proporcionado todos os desejos que nos partilhou e isso deixa-nos em paz!
No meio de tanta dor, a conclusão chegada é como um baptismo que nos lava a alma e nos purifica os corações.
Um tio nosso disse “Quem vive em paz, não tem necessidade de gritar” e esta frase faz todo o sentido, nesta frase talvez esteja a base da serenidade e tranquilidade que agora sentimos!
Diz-se que no topo da montanha se pode tocar nos céus, assim sendo, irei lentamente voltar ao equilíbrio no topo desta montanha. Agora não quero sair, tenho mais motivos para ficar, pois ainda seguro o meu pai e permaneço mais perto da minha mãe!
Uma nova estrela brilha agora nos céus para nos alumiar o caminho e para nos lembrar que uma pessoa é muito mais que aquilo que transparece ser, uma pessoa é o somatório do que era, do que deu e do que fez. E … era minha mãe, deu-me dois irmãos, e fez o meu pai feliz!!
Adeus Mãe!
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